domingo, 31 de outubro de 2010

Meu candidato de estimação

Crônica produzida para a matéria "Revista" do curso de Jornalismo - UVV.
Tema: Animal de estimação e horário político.

Meu candidato de estimação
Minhas lembranças mais remotas trazem à luz uma criança desastrada, atrapalhada, desengonçada... e vejo que minha vida pouco mudou em 28 anos.
Morava em uma casa ampla, com um jardim na frente e um ninho de pardal sob o telhado. Certa vez encontrei um filhote que caíra de sua casinha de palha e agonizava no gélido piso de ardósia encerado semanalmente em um mutirão que envolvia toda a família. A ave ainda não tinha pena. Eu tinha. Por puro altruísmo, desgrudei do chão aquele pobre animal que ainda piava e, com espírito paterno já aguçado, corri até a torneira mais próxima para dar fim à terrível sede que tomava conta daquele pequeno ser. Esse foi certamente o seu último desejo.
Além de cuidar desses indefesos animais, outra diversão que tinha era passar o fim de semana jogando no Atari para fazer a galinha atravessar a rua ou o sapo comer a perereca. Sem falar quando transformava em diabinhos as imagens dos santinhos que recolhia das ruas em tempo de eleição.
Ah, o período eleitoral! Época da verdadeira festa da democracia. Período em que o Brasil realmente vai pra frente, quando no peito de cada cidadão acende a chama da mudança e aproveitamos cada minuto do horário político para colocar nossas atividades em dia. Esse ano minha mãe comentou: "Graças a Deus, começou o horário político!". Pensava "que exemplo de cidadã, essa é minha mãe...", enquanto ela concluiu: "Vou conseguir acabar de passar a roupa..."
O curioso é que essa tradição perdura desde a época em que descobri na prática que filhotes de pardal não comem minhocas inteiras, e hoje certamente "there's an app for that"*, ao menos um vídeo no Youtube que ensine passo a passo como alimentar filhotes de pardais grudados no piso de sua casa. E mesmo com internet, TV a cabo e muita coisa pra entregar com data marcada, reservei o horário político especialmente para concluir uma certa crônica que fiquei devendo semana passada.
De qualquer forma, imagine uma situação hipotética: você está com tudo simplesmente em dia – provavelmente no início de Outubro – e cochilou no sofá da sala enquanto via TV justamente na hora que começou a propaganda eleitoral. Caso os astros se alinhem dessa forma e você, mesmo off-line, tenha assistido a um programa político inteiro, nunca mais, veja bem, NUNCA mais em toda a sua vida precisará ver outro horário eleitoral gratuito. São os mesmos candidatos em campanha que estão nas ruas a cada dois anos, alguns eu vejo com mais frequência que membros de minha própria família. Quando não concorrem para vereador, é para deputado, quando não é para governador, é para prefeito... como será o cartão de visitas deles? "Candidato Profissional. Concorro a cargos políticos, eleição de condomínio, Mister Espírito Santo e concurso de culinária. Analiso proposta para A Fazenda e BBB".
Seria até interessante se as eleições fossem em formato de reality show com políticos, numa espécie de zoológico humano, dividido em tribos de comunistas, socialistas, esquerdistas, conservadores e extrema direita..
Quem sabe uma Feira da Política, com um estande para cada partido, os candidatos pendurados em araras, ou separados em expositores com seus planos de governo. Até imagino o diálogo. O eleitor chegaria ao estande e perguntaria ao atendente:
— Boa tarde. Eu queria um candidato dos bons! O que você tem aí?
— Ah, tem o Fulano. Quer investir em educação, saúde e é contra a pedofilia...
— Humm... Sei não, meio estranho isso... E aquele outro alí?
— Aquele lá? (pausa) Aquele lá... (longa pausa) Na verdade ele nem sabe o que faz um Deputado Federal. – sussurra o atendente.
— Uai... E o que ele faz então? – Indaga o eleitor.
— Ele canta.
Ao fundo ouve-se Florentina, Florentina. Florentina de Jesus..
— Humm... Gostei! Vou ficar com esse – define o eleitor, que arremata:
— Embala que é pra presente.
Foi numa feira dessas que comprei meus últimos animais de estimação, um casal de coelhos esquizofrênicos que pularam do terraço no prédio onde eu morava. Quem sabe não teríamos a mesma sorte de encontrar grudado no gélido piso de nossa calçada aquele nosso "amado" candidato que escolhemos com tanto cuidado?

*There's an app for that = Há um mini-aplicativo para isso, em referência ao slogan da Apple quanto a grande variedade de apps disponíveis para gadgets como iPod, iPhone e iPad.

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