domingo, 31 de outubro de 2010

Era uma vez...

Crônica produzida para a matéria "Revista" do curso de Jornalismo - UVV.
Tema: As ilustrações presentes no texto.

Era uma vez...
A história de um homem solitário, de músicas e de seus amores

Era uma vez uma história de um homem solitário. Decidiu mudar. Pensou em montar uma banda. Comprou uma gaita, tentou alguns acordes... Com os miados da gaita encontrou, vejam só, uma gata. Arisca. Manhosa. Perigosa.
Era uma vez uma história de um homem. De encontros, desencontros... e reencontros, que retratavam toda essa inconstância. Numa dessas, re-conheceu a gata. Ela dizia: "O meu mundo era o apartamento. Detefon, almofada e trato. Todo dia filé-mignon, ou mesmo um bom filé de gato"*. E o homem arriscou.
Era uma vez uma história. Longa história. Enredo de novela, ou até filme de romance. Alertaram ao homem não mais solitário: "Atenção porque nesta cidade corre-se a toda velocidade"*. Não deu ouvidos. Muito tempo se passou. Quanto mais ela 'dama', mais ele 'vagabundo'. E no último beijo da princesa, o príncipe – pobre animal – virou sapo.
"Era uma vez (e é ainda), certo país (e é ainda) onde os animais eram tratados como bestas (são ainda, são ainda)"*. Como sapo perdido no lago, o homem relembrou do tempo que passou veloz. Comeu mosca. Reaprendeu a viver em solidão. Relembrou sonhos, refez projetos, recomeçou. Quis novamente montar uma banda. Sem pensar em gata, desistiu da gaita. Cogitou o tambor, e advinha!? Outra gata!, regada a dendê. Mais arisca. Mais manhosa. Mais perigosa.
Era uma vez uma história. Proibida história. "Confessando bem, todo mundo faz pecado logo assim que a missa termina. Todo mundo tem um primeiro namorado. Só a bailarina que não tem sujo atrás da orelha, bigode de groselha, calcinha um pouco velha, ela não tem"*. E o homem se envolveu em um novo enredo mirabolante. De filme de ação (com romance), de espião (com romance), de suspense (com romance), mas não de romance. Paixão a dois – e só.
Era uma vez uma história de um homem. Acaso, coincidência... destino? Sei lá!? Insólito sentimento. Ela falava: "Me diziam todo momento: fique em casa, não tome vento! Mas é duro ficar na sua quando, à luz da lua, há tantos gatos pela rua"*. E na rua a gata arranhava, mordia e bem-maltratava o homem. E também se envolvia, somente ao ponto de o homem permanecer solitário.
Era uma vez uma história de um homem solitário. Não tinha banda. Não queria mais saber de gaita. Desistiu do tambor, e cantava:
"Dorme a cidade
Resta um coração
Misterioso
Faz uma ilusão
Soletra um verso
Lá na melodia
Singelamente
Dolorosamente
Doce a música
Silenciosa
Larga o meu peito
Solta-se no espaço
Faz-se certeza
Minha canção"*

*Trechos de músicas do disco "Os Saltimbancos" de 1977, versão por Chico Buarque do musical infantil homônimo de Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov. Em ordem: "História de uma gata", "A cidade ideal", "Bixarada", "Ciranda da Bailarina", "História de uma gata" e "Minha Canção".

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