quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dá leite nããão!

Era verão. Sol a pino. Dia extremamente quente. Caminhava pela rua com minha mochila às costas. O peso já seria normalmente insuportável para um menenico fora de forma (ou em forma, dependendo da forma que queira empregar nesse caso) e sem o mínimo de condicionamento físico, mas o calor que fazia potencializava o desgaste do percurso de volta da escola.

Parei de fronte ao alto portão de cor amarronzada (e levemente condenado à ferrugem), com suas lanças apontadas para o céu como se almejassem alguma ameaça física ao sol que tanto nos castigava. Diminuto, olhei para cima. Lá estava ela. Chamativa. Provocante. De formas quase nada arredondadas, mas atraente. Amarelada (e encardida), cercada por uma caixa acinzentada (e igualmente encardida). A encarei por alguns segundos enquanto mandava a informação do meu cérebro até a ponta de meu indicador para que apertasse aquele botão que me tomaria o sofrimento. O braço não obedecia ao sinal elétrico transmitido neurônio a neurônio por minha massa cinzenta, mas meus sentidos se aguçaram. Sentia o aroma do alho no arroz que minha mãe cozinhava a mais de cinquenta metros de distância, enxergava cada detalhe, cada ranhura da textura da campainha, sentia e ouvia a gotícula de suor escorrer lentamente pelo meu rosto, descendo pela lateral de minha face à ponta de meu queixo... até que, em um movimento espásmico, meu braço se esticou rumo ao firmamento, e com o indicador em riste pressionei a campainha com um prazer quase sexual que arrepiou a minha espinha e devolveu à normalidade as percepções sensoriais que me trouxeram de volta ao mundo. Dos fundos da casa, ouvi o grito: "Dá leite nããão!"


Esse grito ecoou em forma de flash back, quinze anos mais tarde, de dentro do copo que segurava em minhas mãos. Quando a Dra. me falou: "Ou você diminui a ingestão leite, ou toma leite de soja", havia encarado como conselho, sugestão, mas não como ameaça.

E analisando com desgosto aquele líquido levemente "amarron-roseado", ligeira e incomodamente adocicado, lembrei de minha infância e do grito de minha mãe: "Dá leite nããão!". Quisera eu ter inventado Leite de Campainha.

Leite de soja não é alternativa... é castigo.